“A Maçonaria está longe de ser um culto. Nem sequer é algo obscuro”

Masonry é um desconhecido para grande parte da sociedade. Tem estado sempre rodeado por um certo obscurantismo e polémica conspiratória. Patricia Planas (Barcelona, 1968) é uma psicóloga e psicoterapeuta que combina o seu trabalho numa clínica com a direcção da instituição maçónica feminina em Espanha, composta exclusivamente por mulheres. Ontem ela deu uma palestra sobre a Maçonaria feminina no Antiguo Instituto.

– O que é a Maçonaria?

-Maçonaria é uma ferramenta de transformação e a perfeição integral do ser humano que utiliza um método iniciático que utiliza símbolos e alegorias.

-É a instituição maçónica uma seita?

-Nada. O nosso modo de pensar é contra as seitas.

-É conservador?

-(Silêncio)

– Temos uma atitude liberal. Somos pessoas de pensamento livre e mente aberta, com um espírito crítico de questionar tudo o que se sabe para tentar encontrar a nossa própria verdade.

– Vocês dissociam-se de qualquer tipo de pensamento religioso e político. No entanto, muitos dos seus membros ocuparam cargos públicos importantes.

-Masonry como instituição não tem cor política, mas respeita que cada irmão escolhe a sua própria ideologia. Há um profundo respeito e acreditamos na liberdade de crença.

-Qual o termo que lhe é mais confortável: sigilo ou discrição?

– Há sigilo no facto do que a Maçonaria praticante implica. Eu gosto de explicar o sabor do chocolate a alguém que nunca o provou. Mas, na sua maioria, somos discretos. Não gostamos de exibicionismo. Não nos definimos como maçons, mas somos reconhecidos como tal por outros maçons. Nesse sentido, somos muito discretos.

– A que acha que se deve a reputação obscurantista da Maçonaria?

-I suponho que as pessoas o relacionam com o secretismo de que falávamos anteriormente. Durante certos períodos da história, a Maçonaria tem sido perseguida e os seus membros têm sido mortos, portanto sim, tiveram de se esconder ou esconder. Mas isso é até onde vai.

-Que função desempenha a Maçonaria para a sociedade?

-Basicamente, que através da transformação de uma pessoa, uma certa influência é gerada no seu ambiente e na própria sociedade. O maçon está muito interessado nas questões sociais e na construção de uma sociedade melhor.

– Não parece coincidir muito com a ideologia de alguém como Franco, que se diz ser um Maçon.

-Franco não era um Maçon. Há rumores de que tentou várias vezes juntar-se à instituição, mas não foi aceite. O seu pai e irmão foram.

-Que papel desempenham as mulheres na instituição maçónica?

– Eu diria que hoje em dia é o mesmo que o dos homens. Uma mulher pode escolher livremente participar num alojamento misto ou só para mulheres (associação). Noutros tempos, as mulheres maçãs lutaram arduamente pela igualdade de género. Há ainda um caminho a percorrer, e estamos nele.

– Estes são símbolos que foram utilizados na construção de catedrais e edifícios civis nos tempos medievais. Hoje, o maçon constrói um templo dentro de si mesmo e usa estes símbolos como ferramentas. Os maçons são pessoas que vivem no século XXI e lutam por causas actuais.

– Na sua inauguração, destaca-se uma frase: “Continuar a trabalhar para a utopia”. Aparentemente falta-lhe muito significado, considerando a utopia como inatingível.

– É. É inalcançável, mas nós Maçons acreditamos que é possível construir um mundo melhor, procuramos a perfeição mesmo sabendo que é utópico. Não acreditamos na perfeição mas acreditamos na perfectibilidade, e é por isso que nos esforçamos.

-Corrige-me se estiver errado, mas o sistema pelo qual elege os seus líderes não parece inteiramente democrático. A Maçonaria acredita na democracia como uma forma de governo?

-Com cada instituição maçónica conduz o processo eleitoral de forma diferente. Para mim, o nosso é totalmente democrático, embora apenas os ‘Grandes Mestres’ votem porque a Maçonaria funciona por graus. Claro que acreditamos na democracia como forma de governo.

Na web e no Facebook

-Que questões preocupam a Loja Maçónica Feminina de Espanha?

Qualidade. Temos de continuar a trabalhar para alcançar a plena igualdade real. Também estamos preocupados com a questão dos refugiados, violência de género…

-Como muitas mulheres compõem a instituição aqui em Espanha?

-Quase 200. Além disso, temos notado que a faixa etária está a diminuir. Actualmente, temos em média 30 anos de idade. As mulheres mais jovens estão a ficar muito interessadas na Maçonaria.

– O que deve fazer uma pessoa de fora para entrar na instituição?

– Agora com a Internet é tudo muito mais fácil (risos). A primeira coisa que deve contactar-nos através do nosso website ou da nossa página do Facebook ou através de outro Mason que conheça.

-Pode avançar quaisquer projectos em que esteja envolvido?

-Direito agora, a nível social, estamos a trabalhar com a Federação de Mulheres Progressistas num projecto muito interessante que elas têm de restabelecer a ligação entre as mães que foram maltratadas e os seus filhos. Em seguida, cada irmã colabora com as associações que considera apropriadas. Há muita liberdade.

– É necessário ter um alto nível cultural ou intelectual para ser maçon?

– Não. Para ser maçon tem de gostar de ler e ser curioso para o conhecer e para o conhecer. É preciso gostar de pensar, mas isto é algo que não depende do nível intelectual. De facto, na nossa associação temos tudo.

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